OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA PESQUISA ACADÊMICA
Na minha rotina profissional, constantemente auxilio alunos de graduação na construção do projeto de pesquisa exigido ao fim do curso. Esse é um momento em que as dúvidas e indecisões predominam sobre as certezas e definições. O que, diga-se, é o normal.
Na minha rotina profissional, constantemente auxilio alunos de graduação na construção do projeto de pesquisa exigido ao fim do curso. Esse é um momento em que as dúvidas e indecisões predominam sobre as certezas e definições. O que, diga-se, é o normal.
Particularmente, tenho para mim que a construção de uma pesquisa é um dos momentos mais ricos e produtivos da vida de um graduando. O esforço em elaborar com objetividade as etapas de uma pesquisa é o principal responsável pelo amadurecimento intelectual do aluno. Mas que tal etapa muitas vezes é angustiante, não posso negar. Mas é uma angústia saudável, daquelas que nos incitam à superação.
Abaixo, teço comentários simplificados sobre os quatro pontos básicos da construção de uma pesquisa. Recomendo a leitura do livro "Como se faz uma tese", de Umberto Eco (São Paulo: Perspectiva, 2000) e de outros livros de Metodologia Científica para auxiliar no processo.
Os quatro pontos básicos dizem respeito ao início da pesquisa. Superada esta etapa, ou concomitante com ela, deve-se pensar no sumário prévio (o roteiro inicial das partes da pesquisa), fazer as leituras fichadas dos livros de referência, começar a tarefa de redigir os capítulos (é aqui que, em vão, lutamos com as palavras, como disse o poeta), fazer e refazer essas etapas e buscar o auxílio do orientador.
Espero que essas dicas ajudem a quem precisa.
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É importante lembrar que a exigência de uma monografia acadêmica tem por objetivo verificar se o aluno, no ano final de sua graduação, assimilou os procedimentos do método científico e se ele é capaz de aplicá-los a sua área de investigação. Muito mais que o conteúdo pesquisado, o que interessa neste momento é construir uma pesquisa - em forma de monografia (ou artigo científico) - na qual seja possível para seus leitores (em especial, os avaliadores) identificar com clareza as partes essenciais a uma pesquisa acadêmica.
Veja abaixo uma forma simplificada para pensar essas partes no caso de uma pesquisa em Literatura:
a) o “corpus”: segundo Márcia Benetti (UFRGS) o “corpus é o recorte arbitrário de elementos que o pesquisador define para que, ao aplicar sobre eles uma metodologia, possa atingir o objetivo”, isto é, são os elementos que servirão de base para a pesquisa, por exemplo, os livros (e também documentos, páginas eletrônicas etc.). Se uma pesquisa pretende investigar certas personagens de um romance, temos o romance em si como o corpus principal. Caso pretenda-se investigar o modo de caracterização da seca nos romances do chamado “Regionalismo de 30”, os romances escolhidos para a investigação constituem o corpus principal (sejam eles dois, três ou dez).
b) a “hipótese”: é uma “tese” que ainda não emergiu, é uma afirmação possível de ser verdadeira, mas que precisa ser comprovada. Na pesquisa literária, nem sempre partimos de uma hipótese, pois muitas vezes, o aluno ainda não tem fundamentação teórica suficiente para formular uma hipótese. Por isso, aconselho que se pense um fenômeno de investigação, um tema e, a partir daí, inicie-se o processo de fundamentação. Desse modo, em meio à pesquisa fica mais claro estabelecer uma hipótese. Em um dos exemplos acima poderíamos sugerir que em “Lucíola”, de José de Alencar, o fato de o narrador Paulo (também personagem) relatar sua experiência amorosa diretamente para uma senhora da sociedade fluminense (ou seja, a “narratária”) é um recurso técnico que funciona como controle moral, isto é, como censura, para o relato em si. Para transformar tal hipótese em tese, ou seja, em um argumento fundamentado, é preciso valer-se de instrumentos teóricos que corroborem a afirmação.
c) o “método”: os instrumentos teóricos citados acima são o que podemos chamar de método. Para se chegar ao objetivo da pesquisa, ou seja, à comprovação da hipótese, é preciso utilizar-se de um “meio”. Este meio são os recursos utilizados para fundamentar os argumentos. A pesquisa bibliográfica é um meio, a análise dos elementos narrativos, a teoria da análise do discurso, os estudos sociológicos e históricos sobre a mulher do século XIX, a biografia sobre o autor e textos escritos pelo próprio, todos esses recursos são meios para se chegar a conclusão desejada.
d) o “objeto”: conforme percebemos no percurso até aqui esboçado, a partir da hipótese aplicada a um “corpus” principal pretende-se atingir um objetivo. Desse modo, o objeto da pesquisa científica não é o material estudado (um romance, por exemplo), mas o “recorte” teórico-argumentativo construído pela reflexão. Num dos exemplos acima, “os efeitos de sentido construídos por determinados modos de representar em linguagem literária um fenômeno natural, social e político (a seca e seus efeitos) em romances de um determinado período (os anos 30)” é o objeto de fato da pesquisa. Observe a diferença deste objeto com os romances em si, que constituem o corpus principal.
Do que foi exposto acima é possível perceber que a construção dessas partes não se dá de forma sequencial, isto é, não pensamos em “a”, depois em “b”, “c” e “d”. De fato, essas partes vão sendo pensadas e articulam-se simultaneamente, sendo que uma afeta e modifica a outra.
Agora é com vocês. Pensem, reflitam e procurem um orientador para auxiliá-los.
Veja abaixo uma forma simplificada para pensar essas partes no caso de uma pesquisa em Literatura:
a) o “corpus”: segundo Márcia Benetti (UFRGS) o “corpus é o recorte arbitrário de elementos que o pesquisador define para que, ao aplicar sobre eles uma metodologia, possa atingir o objetivo”, isto é, são os elementos que servirão de base para a pesquisa, por exemplo, os livros (e também documentos, páginas eletrônicas etc.). Se uma pesquisa pretende investigar certas personagens de um romance, temos o romance em si como o corpus principal. Caso pretenda-se investigar o modo de caracterização da seca nos romances do chamado “Regionalismo de 30”, os romances escolhidos para a investigação constituem o corpus principal (sejam eles dois, três ou dez).
b) a “hipótese”: é uma “tese” que ainda não emergiu, é uma afirmação possível de ser verdadeira, mas que precisa ser comprovada. Na pesquisa literária, nem sempre partimos de uma hipótese, pois muitas vezes, o aluno ainda não tem fundamentação teórica suficiente para formular uma hipótese. Por isso, aconselho que se pense um fenômeno de investigação, um tema e, a partir daí, inicie-se o processo de fundamentação. Desse modo, em meio à pesquisa fica mais claro estabelecer uma hipótese. Em um dos exemplos acima poderíamos sugerir que em “Lucíola”, de José de Alencar, o fato de o narrador Paulo (também personagem) relatar sua experiência amorosa diretamente para uma senhora da sociedade fluminense (ou seja, a “narratária”) é um recurso técnico que funciona como controle moral, isto é, como censura, para o relato em si. Para transformar tal hipótese em tese, ou seja, em um argumento fundamentado, é preciso valer-se de instrumentos teóricos que corroborem a afirmação.
c) o “método”: os instrumentos teóricos citados acima são o que podemos chamar de método. Para se chegar ao objetivo da pesquisa, ou seja, à comprovação da hipótese, é preciso utilizar-se de um “meio”. Este meio são os recursos utilizados para fundamentar os argumentos. A pesquisa bibliográfica é um meio, a análise dos elementos narrativos, a teoria da análise do discurso, os estudos sociológicos e históricos sobre a mulher do século XIX, a biografia sobre o autor e textos escritos pelo próprio, todos esses recursos são meios para se chegar a conclusão desejada.
d) o “objeto”: conforme percebemos no percurso até aqui esboçado, a partir da hipótese aplicada a um “corpus” principal pretende-se atingir um objetivo. Desse modo, o objeto da pesquisa científica não é o material estudado (um romance, por exemplo), mas o “recorte” teórico-argumentativo construído pela reflexão. Num dos exemplos acima, “os efeitos de sentido construídos por determinados modos de representar em linguagem literária um fenômeno natural, social e político (a seca e seus efeitos) em romances de um determinado período (os anos 30)” é o objeto de fato da pesquisa. Observe a diferença deste objeto com os romances em si, que constituem o corpus principal.
Do que foi exposto acima é possível perceber que a construção dessas partes não se dá de forma sequencial, isto é, não pensamos em “a”, depois em “b”, “c” e “d”. De fato, essas partes vão sendo pensadas e articulam-se simultaneamente, sendo que uma afeta e modifica a outra.
Agora é com vocês. Pensem, reflitam e procurem um orientador para auxiliá-los.
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