sexta-feira, 31 de agosto de 2012

TCC (parte 1)


OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA PESQUISA ACADÊMICA

Na minha rotina profissional, constantemente auxilio alunos de graduação na construção do projeto de pesquisa exigido ao fim do curso. Esse é um momento em que as dúvidas e indecisões predominam sobre as certezas e definições. O que, diga-se, é o normal.
Particularmente, tenho para mim que a construção de uma pesquisa é um dos momentos mais ricos e produtivos da vida de um graduando. O esforço em elaborar com objetividade as etapas de uma pesquisa é o principal responsável pelo amadurecimento intelectual do aluno. Mas que tal etapa muitas vezes é angustiante, não posso negar. Mas é uma angústia saudável, daquelas que nos incitam à superação.
Abaixo, teço comentários simplificados sobre os quatro pontos básicos da construção de uma pesquisa. Recomendo a leitura do livro "Como se faz uma tese", de Umberto Eco (São Paulo: Perspectiva, 2000) e de outros livros de Metodologia Científica para auxiliar no processo.
Os quatro pontos básicos dizem respeito ao início da pesquisa. Superada esta etapa, ou concomitante com ela, deve-se pensar no sumário prévio (o roteiro inicial das partes da pesquisa), fazer as leituras fichadas dos livros de referência, começar a tarefa de redigir os capítulos (é aqui que, em vão, lutamos com as palavras, como disse o poeta), fazer e refazer essas  etapas e buscar o auxílio do orientador.
Espero que essas dicas ajudem a quem precisa.
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    É importante lembrar que a exigência de uma monografia acadêmica tem por objetivo verificar se o aluno, no ano final de sua graduação, assimilou os procedimentos do método científico e se ele é capaz de aplicá-los a sua área de investigação. Muito mais que o conteúdo pesquisado, o que interessa neste momento é construir uma pesquisa - em forma de monografia (ou artigo científico) - na qual seja possível para seus leitores (em especial, os avaliadores) identificar com clareza as partes essenciais a uma pesquisa acadêmica.
    Veja abaixo uma forma simplificada para pensar essas partes no caso de uma pesquisa em Literatura:

a) o “corpus”: segundo Márcia Benetti (UFRGS) o “corpus é o recorte arbitrário de elementos que o pesquisador define para que, ao aplicar sobre eles uma metodologia, possa atingir o objetivo”, isto é, são os elementos que servirão de base para a pesquisa, por exemplo, os livros (e também documentos, páginas eletrônicas etc.). Se uma pesquisa pretende investigar certas personagens de um romance, temos o romance em si como o corpus principal. Caso pretenda-se investigar o modo de caracterização da seca nos romances do chamado “Regionalismo de 30”, os romances escolhidos para a investigação constituem o corpus principal (sejam eles dois, três ou dez).

b) a “hipótese”: é uma “tese” que ainda não emergiu, é uma afirmação possível de ser verdadeira, mas que precisa ser comprovada. Na pesquisa literária, nem sempre partimos de uma hipótese, pois muitas vezes, o aluno ainda não tem fundamentação teórica suficiente para formular uma hipótese. Por isso, aconselho que se pense um fenômeno de investigação, um tema e, a partir daí, inicie-se o processo de fundamentação. Desse modo, em meio à pesquisa fica mais claro estabelecer uma hipótese. Em um dos exemplos acima poderíamos sugerir que em “Lucíola”, de José de Alencar, o fato de o narrador Paulo (também personagem) relatar sua experiência amorosa diretamente para uma senhora da sociedade fluminense (ou seja, a “narratária”) é um recurso técnico que funciona como controle moral, isto é, como censura, para o relato em si. Para transformar tal hipótese em tese, ou seja, em um argumento fundamentado, é preciso valer-se de instrumentos teóricos que corroborem a afirmação.

c) o “método”: os instrumentos teóricos citados acima são o que podemos chamar de método. Para se chegar ao objetivo da pesquisa, ou seja, à comprovação da hipótese, é preciso utilizar-se de um “meio”. Este meio são os recursos utilizados para fundamentar os argumentos. A pesquisa bibliográfica é um meio, a análise dos elementos narrativos, a teoria da análise do discurso, os estudos sociológicos e históricos sobre a mulher do século XIX, a biografia sobre o autor e textos escritos pelo próprio, todos esses recursos são meios para se chegar a conclusão desejada.

d) o “objeto”: conforme percebemos no percurso até aqui esboçado, a partir da hipótese aplicada a um “corpus” principal pretende-se atingir um objetivo. Desse modo, o objeto da pesquisa científica não é o material estudado (um romance, por exemplo), mas o “recorte” teórico-argumentativo construído pela reflexão. Num dos exemplos acima, “os efeitos de sentido construídos por determinados modos de representar  em linguagem literária um fenômeno natural, social e político (a seca e seus efeitos) em romances de um determinado período (os anos 30)” é o objeto de fato da pesquisa. Observe a diferença deste objeto com os romances em si, que constituem o corpus principal.

    Do que foi exposto acima é possível perceber que a construção dessas partes não se dá de forma sequencial, isto é, não pensamos em “a”, depois em “b”, “c” e “d”. De fato, essas partes vão sendo pensadas e articulam-se simultaneamente, sendo que uma afeta e modifica a outra.

    Agora é com vocês. Pensem, reflitam e procurem um orientador para auxiliá-los.

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